quinta-feira, março 10

Vá!








Arrume as malas
Não se esqueça dos cabides
Leve também o porta-retrato
E lembre-se de rasgar aquela foto

Coloque nossas lembranças
Na mala azul
E o presente do natal passado
Que nem usei

Leve contigo toda poesia
A música que compôs
No violão de corda quebrada
E eu hei de esquecer
O dia que a cantou

Quando sair, trocarei a cama
Mudarei a chave
Darei-te um adeus pela janela
E sozinha assistirei aquele filme

E outro em teu lugar colocarei
Mais quente, mais vivo
E nele acharei o que em ti não vi
A melodia nos olhos

quinta-feira, março 3

Uma dose de valentia



A coragem da embriaguez
É esse o gole que eu quero tomar
A valentia do fazer e do dizer
Tudo que falta na minha vida sóbria

As palavras saem fáceis
Entre risos e pensamentos travessos
Os movimentos sem reflexo se cruzam
O etílico penetra no sangue aguado

O sol atravessa o copo de vidro
A memória doída falha
O gosto na boca de palavras ditas
As danças malditas no centro da sala

quinta-feira, fevereiro 24

O portão





Deixo-te ir com o coração partido
As mãos em um movimento de sobe e desce dos dedos
ficam a altura do rosto na lateral da porta,
Os olhos com a esperança de que mude de idéia
e retorne como um filme de trás para frente.

Mas você vai, sem olhar para trás.
Foi mais uma noite daquelas, de pura insônia.
Insônia inquietante, ardente, ofegante, prazerosa.
Éramos apenas nós dois, uma cama, um espelho, uma luz (a meia luz).
Aquele era o meu momento, você era meu,
somente meu e estava presente de corpo e mente.

Cumplicidade adúltera, amor racionalmente astucioso,
esta é a nossa relação.
O portão é o nosso limite,
quando você passa por ele, tudo acaba,
e então espero o dia seguinte.
Não almejo a exclusividade,
quero ser a fuga do dia,
o descanso da alma.

terça-feira, fevereiro 22

Apenas sinta

Foto: Rafael Lopes



Pra que falar se o silêncio diz tudo?
Tudo que a boca não tem coragem
E os olhos adestrados transpõem
E que no fundo não passam de temores?

Não precisa dizer nada
Tente apenas sentir,
Use os sentidos
Pare, ouça e sinta com a ponta dos dedos

Não precisa ter pressa
Sinta o cheiro e feche os olhos
Você consegue chegar ao ápice da sensação
Olhe nos olhos, sem medo de olhar

E no final saberá
O muito que procura
Está no pouco que se apresenta.


terça-feira, janeiro 11

Em andamento...

Ela foi cheia de expectativas, de sonhos e de muita ilusão. Estava feliz, no caminho era pura ansiedade. E quando finalmente chegou, mais felicidade sentiu. Mas com o passar dos dias, viu que tudo era diferente, o lugar não era o mesmo, as pessoas não eram as mesmas, e Ele, Ele parou no tempo.
E os dias se tornaram tristes, sombrios, chuvosos. O sorriso não foi visto mais nos seus lábios. E aí, percebeu que tudo que imaginava, que idealizou, não era real, que Ele não era o mesmo dos seus pensamentos.
Então resolveu, dolorosamente, se desfazer, se desapegar. É tão doloroso o desapego! Com muito pesar, iniciou o processo. Primeiro se isolou (ela precisava ter certeza da escolha que fez), por alguns momentos achou que estava sendo covarde e noutros sentia pena de si mesma; depois tirou todo o grau de importância que a presença dele representava. E tudo isso foi feito lentamente, do-lo-ro-sa-men-te.
Ela sentirá falta dele, mas agora pode ser só uma lembrança em preto e branco. E para finalizar o processo definitivamente bastava somente um novo amor. Um “novo Ele”, um Ele que dessa vez pudesse ter um nome, e que fosse cúmplice, gentilmente interessante e o mais importante de tudo: que a amasse. Que simplesmente a amasse.
A reciprocidade e a renúncia são ingredientes importantes e que muitas vezes não estão no paladar dos relacionamentos. Neste exato momento o processo está em andamento e o fato de que Ele mesmo estando perto está mais distante que antes ajuda na conclusão. Quando ela for embora e estiver fisicamente distante tudo será mais fácil e o seu coração estará livre.

quinta-feira, dezembro 23

A caminho da Morte




Cecília vivia na Cidade das Sombras, onde tudo era previsto até o dia da morte. Cidade escura, iluminada somente por tochas, habitada por seres vagantes, sem propósito, sem vida. Cecília estava lá por engano, pegou o caminho errado na estrada, quando percebeu tinha entrado num caminho sem volta, onde todas as mazelas humanas se encontravam.

Pessoas sem esperança, invejosas, egoístas, avarentas, mentirosas e sem amor vagavam sem destino entre as vielas e ruas sombrias aguardando a Morte. Enquanto a própria Morte, em uma busca incessante, escolhia o próximo a cada semana. Todos teriam o mesmo fim. A não ser que no encontro final com a “morte”, se arrependessem de tudo que tivera feito, então teriam uma chance de sair da cidade e de viver em paz.

Só que todos padeciam do mesmo mal, o coração era incapaz de sentir bondade, eram seres sem virtudes. E somente Cecília era capaz de se arrepender. Rapidamente os moradores descobriram a existência de Cecília que estava escondida em uma cabana abandonada perto da Floresta dos Horrores.

O boato se espalhou com facilidade nas bocas e ouvidos das fofoqueiras, enquanto as mentirosas inventavam o paradeiro de Cecília, os trapaceiros vendiam informações erradas, as invejosas resolveram entregar o local de esconderijo para a Morte só para saber se realmente Cecília teria coragem de se arrepender de seus atos. Os egoístas foram na frente e ensinaram o caminho da cabana para assim receberem os elogios pela informação.

A Morte ficou entusiasmada em saber que tinha um ser com virtudes na cidade. Estava cansada dos julgamentos óbvios que fazia todas as semanas com seres tão inescrupulosos. Decidiu ligeiramente que o ser desta semana seria Cecília. E com um piscar dos olhos, se apresentou a Cecília que foi pega de surpresa quando acendia a última vela. Assustada, logo percebeu que havia sido escolhida e que passaria por uma provação difícil, pois a morte faria de tudo para que não se arrependesse de suas atitudes e permanecesse na cidade.

A Morte então começou o seu interrogatório, começou com a seguinte pergunta: 

- Quer dizer que você veio parar na minha cidade por engano?  - perguntou a Morte com um ar desconfiado.
-Sim, existiam duas ruas cruzadas e acabei escolhendo a errada. – respondeu Cecília um pouco surpresa com a pergunta.
- Então essa escolha errada não tem nada haver com uma aposta que fez dizendo que provaria o quão fácil seria de burlar as minhas regras? – a morte se aproximou com um sorriso sarcástico.
- Admito que fiz  a aposta e ainda tenho certeza de que conseguirei. – as palavras da boca de Cecília saíram trêmulas.

Os olhos vermelhos da morte brilharam e num rompante fez a próxima pergunta:

- É de se admirar a certeza que tens em sair daqui, acha que te escolhi á toa? Eu já sabia de suas fraquezas. Acha que realmente passou despercebida entre as minhas vielas escuras? Como és ingênua! Sei do seu histórico de menina bondosa, a que ajuda amiga e toma seu namorado. – Cecília embranqueceu - a que espalha sem dó um segredo contado somente a você, a que ri das desgraças alheias, a que ignora sua família por se achar superior e outras traquinagens que fazia antes de ter a brilhante idéia de me afrontar.

Cecília estarrecida e muita nervosa, respondeu: 

- Mas tudo foi feito com boas intenções! Ele era o meu grande amor, o segredo do outro não era tão relevante, as desgraças que vi realmente eram engraçadas e enquanto a minha família, sinceramente, nasci na família errada!
- Aaaahh, brilhante Cecília!! Nem me deste o trabalho, acabou de admitir que não se arrepende de nada que fez quando resolveu justificá-las. Odeio ditados populares, mas concordo que este se encaixa ao momento “de boas intenções o inferno está cheio” e você, minha cara, se mostrou tão igual quanto aquelas criaturas sem virtudes que vagam lá fora. Toda maldade se torna uma boa intenção para quem as comete. 

Cecília se pôs a chorar e lembrou de um livro que misteriosamente apareceu na porta de sua casa uma semana antes da escolha que lhe levou a estar ali. Um livro muito antigo escrito com tinta vermelha (que só na última página foi entender o porquê), folhas amareladas e rasgadas. Ela abriu na única página intacta e leu: “A única saída da Cidade das Trevas é transformar suas atitudes maléficas em virtudes, antes que o líquido da vida seja derramado”. E na última página existia uma marca de mão, feita a sangue, foi quando então percebeu que o livro inteiro havia sido escrito com sangue.

Quando a Morte voltou-se para Cecília, estava com um punhal nas mãos e um cálice. O ritual de passagem seria um pingo de sangue no centro do cálice e tudo estaria perdido.
Então, Cecília indagou:

- Tenho algo a expor. Tudo que eu fiz, eu não me arrependo, mas o fato de não se arrepender, não implica no sentimento que existiu por trás do ato em si. Existiu um sentimento único que foi o “AMOR”, como por exemplo, no momento em que fiquei com o namorado da minha melhor amiga, e hoje ela está muito bem, ele não a amava. E quanto ao segredo, tive a "CORAGEM" que ela não teve, hoje ela assumiu a sua opção sexual perante a família e amigos e é mais respeitada do que antes; e quanto a minha família, servi de exemplo de superação em chegar aonde cheguei, apesar de todas as dificuldades, e o aparente despeito que tive para com eles foi só mais uma oportunidade de "APRENDIZADO" para mim e para eles também. Tudo que fiz foi motivado por uma virtude e, por mais que a princípio tenha tido momentos infelizes de adaptação, o resultado final foi o “BEM”.

Sentiu os olhos abrindo lentamente, uma luz forte, intensa e quente a impediu de enxergar. Aos poucos levantou-se, sentiu a grama entre os seus dedos e quando finalmente conseguiu abrir os olhos. Reconheceu. Era o jardim de sua casa...








quinta-feira, novembro 11

Pegadas de Amor




Poças de amor transbordam no meu coração
E a minha alma te chama num clamor silencioso
Lágrimas secas escorrem pelo meu rosto ansioso
Enquanto a sua imagem dança nos meus pensamentos de ilusão

Desejo imensamente encontrar sua pegadas e com elas o seu amor
Mas só consigo vê-las nos meus sonhos incompletos
Reconheço o seu rosto por trás da máscara do temor
Um dia enxergará, nas poesias sem rimas, os caminhos incertos

Você não me vê, não consegue me sentir
Os meus lábios para você são gelos a queimar
Suas mãos ao me tocar só encontram o vazio a emergir
E o que me resta é só o lamento de não te alcançar.