sexta-feira, março 25

O primeiro passo foi meu




Convidei-lhe pra dançar

Mas você não soube bailar
A música dos meus desejos mais contidos
E no primeiro passo desistiu

Então sentei
Esperei pelo seu momento
Aquele foi só o meu primeiro convite
E talvez você ainda aprenda a me conduzir
E mais uma vez lhe convidarei

Mas a poltrona era confortável
E era melhor que assim fosse
Porque a espera foi longa

Vi você se arriscar em outras silhuetas
Mas alguma certeza me dizia
Que a dança final seria minha

E alguns rodopios desajeitados surgiram
Numa silhueta nem tão formosa
E você virou sorrindo
E o momento chegou para mim

Aproximou-se sorridente em sua valentia
Com a mão direita pediu-me uma dança
E conduziu-me com os olhos negros
A confundir-me com os meus

domingo, março 20

Um apelo


Que Deus me acompanhe
Nos passos tropeços que dou
E no caminho escuro se ascenda
Uma luz azul cintilante

Que os anjos me acalentem
No meu choro demorado
Vivendo as perdas dolorosas
Dos últimos dias noturnos

Que as santas me cubram
Com os seus mantos alvos
De bênçãos e sorte
Dos heróis e dos sábios



quinta-feira, março 10

Vá!








Arrume as malas
Não se esqueça dos cabides
Leve também o porta-retrato
E lembre-se de rasgar aquela foto

Coloque nossas lembranças
Na mala azul
E o presente do natal passado
Que nem usei

Leve contigo toda poesia
A música que compôs
No violão de corda quebrada
E eu hei de esquecer
O dia que a cantou

Quando sair, trocarei a cama
Mudarei a chave
Darei-te um adeus pela janela
E sozinha assistirei aquele filme

E outro em teu lugar colocarei
Mais quente, mais vivo
E nele acharei o que em ti não vi
A melodia nos olhos

quinta-feira, março 3

Uma dose de valentia



A coragem da embriaguez
É esse o gole que eu quero tomar
A valentia do fazer e do dizer
Tudo que falta na minha vida sóbria

As palavras saem fáceis
Entre risos e pensamentos travessos
Os movimentos sem reflexo se cruzam
O etílico penetra no sangue aguado

O sol atravessa o copo de vidro
A memória doída falha
O gosto na boca de palavras ditas
As danças malditas no centro da sala

quinta-feira, fevereiro 24

O portão





Deixo-te ir com o coração partido
As mãos em um movimento de sobe e desce dos dedos
ficam a altura do rosto na lateral da porta,
Os olhos com a esperança de que mude de idéia
e retorne como um filme de trás para frente.

Mas você vai, sem olhar para trás.
Foi mais uma noite daquelas, de pura insônia.
Insônia inquietante, ardente, ofegante, prazerosa.
Éramos apenas nós dois, uma cama, um espelho, uma luz (a meia luz).
Aquele era o meu momento, você era meu,
somente meu e estava presente de corpo e mente.

Cumplicidade adúltera, amor racionalmente astucioso,
esta é a nossa relação.
O portão é o nosso limite,
quando você passa por ele, tudo acaba,
e então espero o dia seguinte.
Não almejo a exclusividade,
quero ser a fuga do dia,
o descanso da alma.

terça-feira, fevereiro 22

Apenas sinta

Foto: Rafael Lopes



Pra que falar se o silêncio diz tudo?
Tudo que a boca não tem coragem
E os olhos adestrados transpõem
E que no fundo não passam de temores?

Não precisa dizer nada
Tente apenas sentir,
Use os sentidos
Pare, ouça e sinta com a ponta dos dedos

Não precisa ter pressa
Sinta o cheiro e feche os olhos
Você consegue chegar ao ápice da sensação
Olhe nos olhos, sem medo de olhar

E no final saberá
O muito que procura
Está no pouco que se apresenta.


terça-feira, janeiro 11

Em andamento...

Ela foi cheia de expectativas, de sonhos e de muita ilusão. Estava feliz, no caminho era pura ansiedade. E quando finalmente chegou, mais felicidade sentiu. Mas com o passar dos dias, viu que tudo era diferente, o lugar não era o mesmo, as pessoas não eram as mesmas, e Ele, Ele parou no tempo.
E os dias se tornaram tristes, sombrios, chuvosos. O sorriso não foi visto mais nos seus lábios. E aí, percebeu que tudo que imaginava, que idealizou, não era real, que Ele não era o mesmo dos seus pensamentos.
Então resolveu, dolorosamente, se desfazer, se desapegar. É tão doloroso o desapego! Com muito pesar, iniciou o processo. Primeiro se isolou (ela precisava ter certeza da escolha que fez), por alguns momentos achou que estava sendo covarde e noutros sentia pena de si mesma; depois tirou todo o grau de importância que a presença dele representava. E tudo isso foi feito lentamente, do-lo-ro-sa-men-te.
Ela sentirá falta dele, mas agora pode ser só uma lembrança em preto e branco. E para finalizar o processo definitivamente bastava somente um novo amor. Um “novo Ele”, um Ele que dessa vez pudesse ter um nome, e que fosse cúmplice, gentilmente interessante e o mais importante de tudo: que a amasse. Que simplesmente a amasse.
A reciprocidade e a renúncia são ingredientes importantes e que muitas vezes não estão no paladar dos relacionamentos. Neste exato momento o processo está em andamento e o fato de que Ele mesmo estando perto está mais distante que antes ajuda na conclusão. Quando ela for embora e estiver fisicamente distante tudo será mais fácil e o seu coração estará livre.